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Inteligência Artificial

Adaptar ou Desaparecer? O especialista na era da inteligência artificial

A história do Dodô ajuda a explicar o futuro de muitos especialistas. O conhecimento ficou abundante, mas experiência real organizada continua rara.

7 min · 30/06/2026

Adaptar ou Desaparecer? O especialista na era da inteligência artificial

Li uma história sobre o Dodô e fiquei pensando no quanto ela ajuda a explicar o momento que estamos vivendo.

Você conhece o Dodô?

Era uma ave que vivia nas Ilhas Maurício, no Oceano Índico.

Durante milhares de anos, seus ancestrais viveram em um ambiente com poucos predadores terrestres. Ao longo do tempo, a ave se adaptou àquelas condições e perdeu a capacidade de voar.

Não precisava. O ambiente em que ela havia evoluído permitia aquilo.

Até que o ambiente mudou.

Com a chegada dos seres humanos, vieram a caça, a ocupação da ilha e animais introduzidos, como porcos e ratos, que também atacavam as aves e seus ovos. Os holandeses chegaram em 1598 e foram os primeiros europeus a se estabelecer na ilha; há registros de visitas portuguesas anteriores. O último avistamento confiável do Dodô é de 1662, embora existam estimativas posteriores.

Em poucas décadas, uma espécie que havia passado milhares de anos adaptada àquele ambiente desapareceu.

O Dodô não tinha ficado pior naquilo que fazia, o ambiente é que deixou de ser o mesmo.

E foi isso que me fez pensar nos especialistas.

O ambiente também mudou para quem vende conhecimento

Durante muito tempo, ter acesso à informação já era uma vantagem importante.

Quem havia estudado determinado assunto por anos sabia coisas que a maioria das pessoas simplesmente não tinha como descobrir rapidamente.

Depois veio a internet.

Cursos.

YouTube.

Google.

Redes sociais.

E agora a Inteligência Artificial acelerou esse processo de uma maneira difícil de ignorar.

Hoje, em poucos minutos, alguém consegue usar uma IA para ajudar a criar uma apresentação, estruturar um texto, resumir um assunto, organizar informações ou documentar um processo.

Isso não significa que a IA faça tudo bem.

Também não significa que conhecimento deixou de ter valor.

Significa que o acesso a uma quantidade enorme de conhecimento ficou muito mais fácil.

E, quando algo se torna abundante, precisamos perguntar: o que continua raro?

Experiência não é a mesma coisa que informação

Você pode perguntar a uma Inteligência Artificial como conduzir uma reunião difícil.

Ela pode apresentar boas possibilidades, mas existe uma diferença entre conhecer possibilidades e ter participado de centenas de reuniões difíceis.

Você pode pedir uma estratégia comercial, mas existe uma diferença entre organizar uma estratégia no papel e ter passado anos vendo clientes comprarem, recusarem, negociarem e mudarem de ideia.

Você pode pedir uma lista de erros comuns em determinado mercado, mas existe uma diferença entre ler essa lista e ter cometido alguns desses erros, pago o preço e aprendido a reconhecê-los antes que aconteçam novamente.

É aí que a experiência começa a ganhar outro peso.

Não apenas pelo tempo acumulado, mas pelo julgamento que esse tempo ajudou a construir.

Só ter experiência também não basta

Aqui está a parte desconfortável.

Não adianta ter vinte anos de experiência se tudo o que você aprendeu continua apenas na sua cabeça.

Se você não consegue explicar como pensa, quais critérios utiliza, quais padrões reconhece e como chega a determinadas decisões, boa parte desse conhecimento continua dependendo exclusivamente de você.

Por isso tenho falado tanto sobre organizar a experiência.

Registrar. Identificar padrões. Transformar decisões recorrentes em critérios. Transformar processos em métodos. Dar nome às coisas que você aprendeu a fazer intuitivamente.

A Inteligência Artificial pode, inclusive, ajudar nesse trabalho. Ela não precisa ser apenas a tecnologia que mudou o ambiente.

Pode ser uma ferramenta para ajudar você a se adaptar a ele.

O especialista não precisa competir com a IA para saber mais coisas

Essa talvez seja uma das discussões mais importantes daqui para frente.

Tentar competir com uma máquina pela quantidade de informações que consegue armazenar ou recuperar não parece uma disputa muito interessante.

O especialista pode ocupar outro lugar.

Contextualizar.

Julgar.

Questionar.

Relacionar informações com situações reais.

Perceber exceções.

Entender consequências.

Assumir responsabilidade por uma recomendação.

E usar a própria experiência para enxergar aquilo que não aparece em uma resposta genérica.

Quanto mais fácil fica obter uma resposta, mais importante pode se tornar saber fazer a pergunta certa e avaliar a resposta recebida.

Adaptar não significa abandonar tudo o que você construiu

Existe uma ironia nisso.

Quando uma tecnologia nova aparece, muita gente acredita que precisa jogar fora o que aprendeu e começar novamente.

Eu penso quase o contrário.

Sua experiência pode se tornar ainda mais importante.

O que muda é a maneira como você a utiliza.

Talvez parte dela possa virar uma metodologia.

Talvez um processo possa ser documentado.

Talvez aquilo que você faz individualmente possa ganhar uma ferramenta.

Talvez sua maneira de pensar possa orientar uma equipe.

Talvez uma parte do seu conhecimento possa virar uma nova oferta.

E talvez a própria IA permita que você faça algumas dessas coisas de uma maneira que antes seria cara ou demorada demais.

Adaptação não é esquecer o passado. É encontrar uma nova utilidade para aquilo que você construiu dentro do ambiente que existe agora.

O que o Dodô tem a ver com você?

O dodô não desapareceu simplesmente porque “não soube se adaptar”. Extinções são fenômenos biológicos muito mais complexos do que uma metáfora de negócios.

Mas a história deixa uma imagem interessante.

Um ambiente pode mudar mais rápido do que aquilo que funcionava dentro dele.

E o nosso ambiente está mudando.

A Inteligência Artificial não tornou experiência inútil.

Ela tornou informação mais acessível.

E isso pode aumentar a importância justamente daquilo que não se constrói com um prompt de cinco linhas: repertório, julgamento, contexto e experiência real.

A pergunta, portanto, talvez não seja: “a Inteligência Artificial vai substituir o especialista?”

Existe uma pergunta mais útil: “o que um especialista precisa fazer de diferente agora que o acesso ao conhecimento mudou?”

Eu começaria por uma coisa.

Olhar para tudo aquilo que levou anos para aprender e perguntar: como posso organizar essa experiência para que ela continue sendo valiosa em um mundo em que informação deixou de ser escassa?

Essa conversa está apenas começando.

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